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março 26, 2004

4 coisas (*). 

Fizeram o teste ali embaixo? Fiz 84 pontos, me foi recomendado que falasse menos. hmmm.


Agora 4 coisas:

1. Um novo colega (não meu) acaba de se instalar - mas nada de lingüística, só piadas: economia, política; o cardápio costumeiro.

2. Para poder trocar figurinhas com ele aí em cima, antes de escrever seus 'comments' prepare-se aqui, vão saber o mesmo tanto. Se quiser imprima, decore, colecione.

3. Tome uma chuveirada depois, ora essa.

4. E não deixe de passar sempre aqui.

(*) O colega novo era o Noah Chomsky (óbvio); o link estava errado, mas já corrigi.

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março 25, 2004

Puros. 

Tenho alergia a tudo, à fumaça especialmente. Charutos me irritam.

Até cubanos?

Não. Aliás, ao contrário - mas só nesse caso. E por falar em puros, veja se também és um aqui.



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março 24, 2004

You can call me “Prince Míchkin” 

“David Halberstam fez um discurso de formatura que tive o privilégio de ouvir. Ele pediu à turma de formandos que refletisse sobre o fato de os alunos mais bem-sucedidos terem recebido ofertas de emprego como consultores. Os empregos incluíam altos salários porque ninguém normalmente aspiraria ao cargo de “consultor” aos vinte anos, a não ser que fosse subornado – não havia nada de intrinsecamente interessante num cargo daqueles, de modo que ele precisava vir acompanhado de um polpudo contracheque. Não era o tipo de coisa a que uma pessoa jovem e cheia de energia fosse se dedicar, a não ser que fosse subornada.”

David Mamet,
Três Usos da Faca – Sobre a Natureza e a Finalidade do Drama”, pág. 57 (Ed. Civilização Brasileira)

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Nada temos a temer, exceto as palavras. 

“Encontrei Foucault com freqüência, tenho muitas recordações como que involuntárias e que me pegam pelas costas, (...).”

Gilles Deleuze,
“Conversações”, pág, 105. (Ed. 34)
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“O Mundo como Maldade contra Negão”, ou: Leitura diária dos defensores das Cotas. 

“Portanto, é bastante verdadeiro o que dizia Sêneca: Omnis stultitia laborat fastidio sui [Toda estultice sofre com seu próprio fastio] (Ep. 9, parág. 22); bem como a sentença de Jesus, filho de Sirac: “A vida do néscio é bem pior do que a morte” [22, 12]. Assim, no todo, acharemos que cada um será tanto mais sociável quanto mais pobre for de espírito, e, em geral, mais vulgar. Pois, no mundo, não se tem muito além da escolha entre a solidão e a vulgaridade. Os mais sociáveis de todos os homens devem ser os negros; também são eles que, em termos intelectuais, estão decididamente mais atrasados. Segundo relatos enviados da América do Norte e publicados em jornais franceses (Le Commerce, 19 de outubro de 1837), os negros, tanto os livres quanto os escravos, reúnem-se em grande número, apertados no espaço mais estreito, pois não é sempre que conseguem ver seus rostos negros de nariz achatado repetidos tantas vezes.”

Arthur Schopenhauer,
“Aforismos para a Sabedoria de Vida”, pág. 27 (Ed. Martins Fontes)

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março 18, 2004

Consertos para a Juventude 

"Não foi casual que no último século fosse o filósofo tão infiel à sua condição. Foi característico desses tempos no Ocidente não aceitar o Destino, querer ser o que não se era. Por isso foi uma época constitutivamente revolucionária. Em sentido último, "espírito revolucionário" significa não somente anseio para melhorar - coisa que é sempre excelente e nobre -, mas crer que se pode ser sem limites o que não se é, o que radicalmente não se é, que basta pensar numa ordem do mundo ou da sociedade que parecem ótimas para que devamos realizá-las, não reparando que o mundo e a sociedade têm uma estrutura essencial imutável, a qual limita a realização dos nossos desejos e dá um caráter de frivolidade a todo reformismo que não conte com ela. O espírito revolucionário que tenta utopicamente fazer que as coisas sejam o que nunca poderiam ser nem têm razão para ser, é preciso que seja substituído pelo grande princípio ético que Píndaro liricamente apregoava e diz, sem mais, assim: Chega a ser o que és".

José Ortega y Gasset,
trecho do ensaio "O que é a Filosofia".
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março 17, 2004

Cola à frente da mesa onde escreves (caso tu não sejas Borges) 

Fragmento de uma poética

Não desejar este cristal
de geométrica beleza,
lágrima congelada, sol
viúvo da sombra, esta acesa

volúpia de lavar o espaço
da lama viva dos teus passos;

não suplicar em tuas preces
pelos lírios de luz e vidro
que não cheiram nem apodrecem;

aquém e além é cedo ou tarde:
teu limite é tua verdade.

Alberto da Cunha Melo,
"Meditações sob os Lajedos", trecho da primeira parte, "Embarque" (fonte: coletânea "Dois Caminhos e uma Oração", contendo a obra citada, "Yacala", e "Oração pelo Poema").
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março 15, 2004

Rio de Janeiro, "Cidade Epistemológica". 

"Temos várias maneiras de relacionar-nos com a natureza, algumas das quais podem ser chamadas "sobrenaturais", "teóricas" ou "perspectivas" (segundo nossos vários gostos). Uma de tais maneiras é encarar a natureza como se fosse mapa. Invertemos, sob tal visão, a relação epistemológica entre paisagem e mapa. O mapa não mais representa a paisagem, mas agora é a paisagem que representa o mapa. O mapa não mais serve de instrumento para orientar-nos na paisagem, mas agora é a paisagem que representa o mapa. A verdade deixa de ser função da adequação do mapa à paisagem, e passa a ser função da adequação da paisagem ao mapa. Tal furioso idealismo, inculcado em nós nos ginásios, se exprime na sentença "o mar é azul, e as possessões inglesas são vermelhas". Sob tal visão, vales passam a ser os caminhos pelos quais a água corre em direção ao oceano. Visão "científica", esta?

"Temos, no caso, determinado modelo. O da circulação da água. Não importa, aqui, a origem do modelo. O modelo prevê (no sentido de "manda" e de "profetiza") que uma das fases do ciclo da água seja a descida da água por serras e vales. A observação da paisagem confirma o modelo. Ou seja: a paisagem se adapta ao modelo (ao "mapa"). Respondeu "sim". Os vales são respostas afirmativas à investigação "espiritual" (formal) do mapa. Loucura? Sim, no sentido do "espírito" ser loucura, do homem ser animal louco. E não, no sentido do "espírito" ser negação, do homem ser animal que pode mudar vales construindo represas. Para quem é engenheiro, tal visão do vale é "adequada". Para quem mora no vale, louca. Mas será que engenheiros não podem morar em vales? Não podem. Enquanto engenheiros, moram nos mapas.

"Eu não sou engenheiro e moro num vale. Ou moro? Embora não seja engenheiro, sou, eu também, homem. Animal louco. Também eu fui expulso do paraíso, e não apenas os engenheiros. Não posso morar no vale, ou, pelo menos, não o posso integralmente. Também eu moro, parcialmente, no reino dos engenhos, embora os meus engenhos não sejam os do engenheiro. Não faço, como faz o engenheiro, "ciência da natureza". Sou, ai de mim, humanista. Minha loucura é outra. Vales, para mim, são também caminhos. Não, por certo, da água. Mas caminhos para homens. Eis porque não posso morar no vale tão integralmente quanto nele moram, por exemplo, as corças. Corças andam no vale, eu ando por ele. Atravesso o vale (seja de lágrimas, seja de sorrisos). Homo viator. Cavaleiro errante, judeu errante. Estrangeiro. Mas não integralmente. Se eu ando pelo vale da sombra da morte, Tu estás comigo. Como então é verde o meu vale! No entanto, o vale é meu, e eu não sou dele. Não sou dele porque eu também disponho de mapa, ao qual meu vale deve responder "sim" ou "não", adequar-se. Meu mapa, meu engenho, é este:

"A humanidade é horda de invasores, de imigrantes. Invade a paisagem há, provavelmente, uns 8 milhões de anos. Em várias levas. Em busca de renas, mamutes, gramíneos, gado, sal, carvão, eletricidade, em suma, em busca de felicidade. De onde vem a horda, não se sabe. Provavelmente, é questão "falsa" esta; não há método para respondê-la. Embora não pareça ser "falsa", já que 8 milhões de anos não são tanto tempo, afinal de contas. Mas para onde vai a horda, isto se sabe. Sobe. Sobe ao longo dos rios e dos riachos em sentido contrário ao da água. Sobe pelos vales. Os vales são as artérias pelos quais sobe o sangue do rio da humanidade. E os estreitos vales montanhosos são os capilares. Neles, a invasão estagna. São eles represas em sentido contrário ao do engenheiro. No meu mapa, os primeiros são os últimos: os bandeirantes mais corajosos que formam a ponta da lança invasora e penetram os vales mais estreitos são lá represados para formarem os últimos vestígios de horda. Eu moro (no sentido problemático do termo) em vale estreito e montanhoso. Agora responda "sim" ou "não", meu vale. Responda a minha pergunta "perspectivista", historicista, humanista."

Vilém Flusser,
"Natural:mente, Vários Acessos ao Significado da Natureza", págs. 17 e 18.
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Missa do Galo, um adendo 

"Como lhe fica bem aquele vestido! De longe ela parece mais esbelta, quase magra... Desce agora novamente a Avenida, com a mesma firmeza, sem tomar conhecimento, aparentemente, dos olhares furtivos.

"Disse eu "aparentemente"? Disse. Disse porque pensei. E a semente da idéia crescia rapidamente, esgalhava-se, dava frutos. Sim, ela não toma conhecimento aparentemente. Na verdade ela sente aquele mudo sufrágio dos vultos que passam. Sem voltar o rosto, sem passar recibo, ela vai andando. Mas sente. E anda, com aquele passo, para sentir, para recolher, para fixar em si mesma o anônimo tributo. Para orvalhar-se.

"Não precisa retribuir; basta receber. Dir-se-ia que é diferente, nela e em mim, e em nós outros, o mecanismo da cortesia do sexo. Nós precisamos olhar; ela precisa ser olhada. Em nós, havendo interesse, qualquer coisa sai de nós, como um dardo, ou como um laço que se atira e vai envolver a forma apetecida. Nela não; o interesse reside no nível de seu próprio corpo. Uma forma masculina, braço ou perna, pouco lhe diz. O que lhe interessa é a nossa atenção, isto é, os movimentos ainda que fugitivos com que acusamos a presença de seu campo de gravitação. É nela, nela mesma, que termina, tanto o nosso como o seu desejo. Ela fica; espera; e nós nos precipitamos. O desejo masculino é um querer ir; o feminino é um querer que venha. Não há nesse jogo dois corpos de massas equivalentes que mutuamente se atraem, e ao meio do caminho se encontram. Ao contrário, há uma desproporação enorme, como entre a Terra e a poeira fecundadora que na doutrina da panspermia explica a origem da vida. O meio caminho desse choque dos sexos é a própria mulher.

"É por isso que a "boa Conceição", depois de todas as rotativas evoluções compatíveis com a dignidade de seu sexo, espera em vão que o estudante execute o passo masculino, que a devolva a si mesma, isto é, ao seu papel de termo imóvel e poderoso.

"Tudo isso é evidentemente relativo, porque o sexo é mais uma predominância do que uma absoluta diferença. Todos nós temos, escondido, um companheiro do outro sexo. Há também anomalias, tanto no sentido da frigidez como no da exasperação; mas creio poder afiançar, de um modo geral, que o movimento típico da mulher é uma rotação, enquanto o do homem é uma translação. O jogo do amor não é simétrico: de um lado tem-se uma atividade retilínea que se projeta, que busca a coisa desejada; de outro lado uma atividade potencial, de astro, ou de flor que chama o leve e inquieto coração dos homens.

"Para dar um exemplo, ilustrando a teoria, lembro o seguinte: se nós quiséssemos, como os moralistas assustados, neutraizar o interesse da recíproca atração, bastaria cobrir o corpo da mulher; ou então os olhos dos homens.

"E os olhos das mulheres, esses decantados olhos que já esgotaram todos os adjetivos e cansaram todas as metáforas? E os olhos de ressaca de Capitu? É evidente a predominância do olhar feminino nos episódios de amor. Dou um pesponto em minha doutrina, dizendo que o olhar da mulher pe mais luz do que vista, é mais farol aceso no meio da noite do que telescópio de gajeiro. Ou então diria que ela não olha para ver, e sim para corresponder, para encorajar, para adensar as linhas de força do seu campo, ou para retribuir o telegrama com resposta do olhar masculino."

Gustavo Corção,
trecho do livro "Lições de Abismo", págs. 116 e 117.
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março 12, 2004

Digestão 

"Da inconsistência dos homens:

Todos esses psicanalistas que defendem a rebeldia e o voluntarismo dos jovens, como virtudes essenciais, parecem esquecer que Sófocles já tinha quase setenta anos quando escreveu Édipo Rei, misto de tragédia e caso clínico a que todos esses profissionais devem boa parte de seu êxito..."

Antônio Fernando Borges,
Braz, Quincas & Cia., trecho do cap. 16.

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março 11, 2004

Madrid, 189 assassinados, 1.500 feridos. 


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Well, there's another party in town (e é hoje, não percam!) 


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março 10, 2004

It's a Party! 

10 de março de 1944:

Há exatos 60 anos, em Londres, era publicado "The Road to Serfdom" (O Caminho da Servidão), de F. A. Hayek - um soco no estômago!, um tapa na cara das gentes de língua presa. Tem festa e bolo em Londres, Washington, e na Cracóvia.

De chapéu e língua de sogra, visitem...

1. Discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Economia, F. A. Hayek (1974): aqui.
2. Arquivos sobre Hayek na Internet: aqui.
3. Blog "PrestoPundit", ligado ao Hayek Center, atualizado diariamente: aqui.
4. Sociedade Oficial Pedra-Papel-Tesoura: aqui.

... e leiam:

De Volta para o Futuro

"A democracia exige que as possibilidades de controle consciente se restrinjam aos campos em que existe verdadeiro acordo, e que, em certos campos, se confie no acaso: este é o seu preço. Mas numa sociedade cujo funcionamento está subordinado ao planejamento central não se pode fazer com que esse controle dependa da possibilidade de um acordo da maioria; muitas vezes será necessário impor ao povo a vontade de uma pequena minoria, porque esta constitui o grupo mais numeroso capaz de chegar a um acordo sobre a questão em debate. O governo democrático funcionou de modo satisfatório nos casos em que, por força de uma convicção amplamente difundida, as funções governamentais se restringiram aos campos em que se podia alcançar um acordo de maioria pelo livre debate - e só funcionou enquanto isso foi possível. O grande mérito da doutrina liberal é ter reduzido a gama de questões que dependem de consenso a proporções adequadas a uma sociedade de homens livres. Muitos dizem, no atual momento, que a democracia não tolerará o "capitalismo". Se na acepção dessas pessoas "capitalismo" significa um sistema de concorrência baseado no direito de dispor livremente da propriedade privada, é muito mais importante compreender que só no âmbito de tal sistema a democracia se torna possível. No momento em que for dominada por uma doutrina coletivista, a democracia destruirá a si mesma, inevitavelmente."

F. A. Hayek,
trecho do Cap. 5, "Planificação e Democracia", do livro "O Caminho da Servidão".

Agora sim, comentem.
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março 09, 2004

Striking Resemblance 

"A palavra "peste" acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á o narrador que justifique a incerteza e o espando do médico, já que, com algumas variações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempres as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como os nossos concidadãos; é necessário compreender assim as duas hesitações. E por isso é preciso compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: "Não vai durar muito, seria idiota." E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Nosso concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavem em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as precauções. Nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos."

Albert Camus,
trecho do Romance "A Peste".

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março 08, 2004

O analfabetismo é a maior ameaça, não Gramsci. 

Reinaldo Azevedo: Na sua opinião, o PT trilhou, na economia, o único caminho possível ou, entre os caminhos possíveis, escolheu o mau caminho?

José Serra: Não é um problema de fazer a escolha entre A, B ou C. Para ter diferentes escolhas, é preciso ter um certo grau de conhecimento, de domínio, do quadro econômico-social, o que me parece que o PT não tinha. O partido tinha um programa nacional-populista, que deixou de lado depois das eleições, e não substituiu por nada. Não foi uma escolha entre diferentes opções. Daí a razão de a política econômica não apenas não ter mudado, mas também cometido o exagero de dosagem. E a dose faz o veneno. Isso na política econômica de curto prazo. Se a gente for olhar para a área social, por exemplo, ou outras que têm a ver com o desevolvimento de médio e longo prazos, o que se vê é uma total falta de concepção do que, de fato, fazer. Eu lembro que, na campanha, em alguns debates de maior profundidade, eu havia dito isto: o risco do PT no governo não é o esquerdismo, é a inépcia. Essa inépcia envolve a falta de programa, a falta de quadros, um conjunto de outras questões, enfim, não relacionadas ao esquerdismo.

Revista Primeira Leitura,
trecho de entrevista concedida por José Serra (edição de março de 2004).
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março 05, 2004

The Dismal Science 

"Diversamente do que se costuma acreditar, a epistemologia falsificacionista, que tanto apelo ainda exerce sobre os economistas, não provê uma descrição adequada de sua própria prática. Fascina-os apenas por causa da noção estreita de saber científico que pervade a disciplina. Nada mais distante da prática efetiva da ciência econômica do que a ficção positivista de um sistema econômico inambigüamente dado à observação, árbitro supremo de todas as discordâncias, face ao qual os vários corpos teóricos proviriam explicações desinteressadas. Na história do pensamento econômico as controvérsias são resolvidas não porque uma das teses foi falsificada, mas sim porque a outra comandou maior poder de convencimento. Controvérsias se resolvem retoricamente; ganha quem tem maior poder de convencer, quem torna suas idéias mais plausíveis, quem é capaz de formar consenso em torno de si."

Pérsio Arida,
trecho do ensaio "A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica", publicado na coletânea de mesmo nome.
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março 04, 2004

Apesar e Contra Ti. 

"Morro calmamente mas não apaziguado, não satisfeito; vencido, batido, mas não escravo; amargo, mas não decepcionado. Como credor e como crente mas não como devedor e pedinte, não suplicando nem orando. Amoroso de Deus mas sem dizer-Lhe cegamente "Amém" a tudo aquilo que Ele faz.

"Eu O segui, mesmo quando Ele me repeliu. Eu observei Seus mandamentos, mesmo que Ele tenha me golpeado por isso. Eu O amei, fui e permaneço amoroso dEle, mesmo que Ele me tenha rebaixado até o chão, que Ele tenha me torturado até a morte, que Ele tenha feito de mim objeto de opróbrio e de riso.

"Meu rabi contou-me muitas vezes a história de um judeu que, com sua mulher e seu filho, tinha fugido da Inquisição espanhola. Ele embarcou num pequeno navio e, apesar da tempestade, conseguiu chegar a uma ilhota rochosa. Lá, um raio fulminou sua mulher. Depois, um tornado arrebatou a criança lançando-a às ondas do mar. Só, infeliz como as pedras, em farrapos e com os pés descalços, fustigado pelo vento, apavorado pelos trovões e relâmpagos, desvairado e levantando as mãos ao céu, o judeu prosseguiu, desolado, o seu caminho pelos rochedos e dirigiu-se a Deus:

"Deus de Israel, disse ele, fugi até aqui para poder servir-Te livremente, para observar Teus mandamentos e santificar o Teu nome. Mas Tu, Tu fazes de tudo para impedir-me de acreditar em Ti. Contudo, se Tu pretendes, com estas provas, conseguir desviar-me do caminho reto, eu Te advirto, meu Deus e Deus de meus antepassados: Teus esforços serão em vão. Podes continuar a ofender-me, a fustigar-me, a arrancar-me aquilo que tenho de mais caro e de mais precioso no mundo, podes torturar-me até a morte - eu sempre acreditarei em Ti. Amar-Te-ei sempre, sempre - apesar e contra Ti.

"E estas são também as últimas palavras que Te dirijo, oh meu Deus furioso: isto não Te valerá de nada! Fizeste de tudo para fazer-me duvidar de Ti, para que eu não creia em Ti. Mas morro exatamente como vivi, com uma fé inquebrantável.

"Louvado seja para sempre o deus dos mortos, o deus vingador, da verdade e da justiça, que muito em breve mostrará novamente Sua face ao mundo e que com a Sua voz todo-poderosa fará tremer este mundo nos seus alicerces.

Shemá Israel! Escuta, Israel, nosso deus o Eterno, o Eterno é Um. À Tua mão, Oh, Senhor, entrego meu último suspiro!"

Yossel Rakover [Zvi Kolitz],
"Yossel Rakover Dirige-se a Deus."

Comprem. And read the whole thing.

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março 03, 2004

Teen Plato didn't find greek Playboy much fun. 

"A leitura antiga é leitura de uma forma de livro que não tem nada de semelhante com o livro tal como o conhecemos, tal como o conhecia Gutenberg e tal como o conheciam os homens da Idade Média. Este livro é um rolo, uma longa faixa de papiro ou de pergaminho que o leitor deve segurar com as duas mãos para poder desenrolá-la. Ele faz aparecer trechos distribuídos em colunas. Assim, um autor não pode escrever ao mesmo tempo que lê. Ou bem ele lê, e suas duas mãos são mobilizadas para segurar o rolo, e neste caso, ele só pode ditar a um escriba suas reflexões, notas, ou aquilo que lhe inspira a leitura.

"Ou bem ele escreve durante sua leitura, mas então ele necessariamente fechou o rolo e não lê mais. Imaginar Platão, Aristóteles ou Tito Lívio como autores supõe imaginá-los como leitores de rolos que impõem suas próprias limitações.

"Isto supõe imaginá-los, também, ditando seus textos e dando uma importância à voz infinitamente maior que a do autor dos tempos posteriores, que, no retiro de seu gabinete, pode escrever ao mesmo tempo que lê, consultar e comparar obras abertas diante de si."

Roger Chartier,
"A Aventura do Livro".

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março 02, 2004

Quoth the Raven, 'say no more' - go read a blog, bitch! 

"In getting my books, I have been always solicitous of an ample margin; this not so much through any love of the thing in itself, however agreeable, as for the facility it affords me of pencelling suggested thoughts, agreements, and differences of opinion, or brief critical comments in general. Where what I have to note is too much to be included within the narrow limits of a magin, I commit it to a slip of paper, and deposit it between the leaves; taking care to secure it by an imperceptible portion of gum tragacanth paste."

Edgar Allan Poe,
da "Democratic Review" de novembro de 1844.
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março 01, 2004

Propaganda de fonoaudióloga em templo da Universal. 

"Ajuntou Jefté todos os homens de Gileade, e pelejou contra Efraim. (...) Os gileaditas tomaram os vaus do Jordão que conduzem a Efraim, e quando os fugitivos de Efraim diziam: Quero passar, então os homens de Gileade lhes perguntavam: És tu eframita? Dizendo ele: Não, então lhe diziam: Dize Chibolete. Porém ele dizia: Sibolete, porque não o podia pronunciar bem. Então pegavam dele, e o degolavam nos vaus do Jordão. Caíram de Efraim naquele tempo quarenta e dois mil."

Livro de Juízes,
Cap. 12, vs. 5 e 6.
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