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junho 23, 2004

Mulheres... 

"Releio alguns trechos Do Amor, do Padre Antônio Vieira, e vou me enrolando nos panejamentos barrocos, fico esférica, subo em espiral. Anoto: "O amor deixará de variar se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor."

Lygia Fagundes Telles,
trecho de "A Disciplina do Amor".
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junho 22, 2004

Dor na Consciência 

Fui pescar ontem no sebo Beringela, e trouxe pouca coisa comigo:

1. "A Vaca do Nariz Sutil", do Campos de Carvalho
2. "The Origin of Species and the Descent of Man", do Darwin (uma edição bonita, com ex libris de um tal Theo Lewkowicz)
3. "Sobre todas as Coisas", do Carlos Heitor Cony

É um perigo quando a pescaria vai mal assim, pois a Da Vinci mora ao lado. Ontem não resisti à tentação. Trouxe também:

4. "Plan of Attack", do Bob Woodward
5. "The Retoric of Reaction", do Albert O. Hirschman
6. "The Jews of Islam", do Bernard Lewis

Um pechincha: 6 livros pelo preço de 20.

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junho 21, 2004

Fé Mundana. 

Sou devoto de uma crença mística, uma piedade mundana que de certa forma complementa meu cristianismo mal-acabado – tenho fé nos poderes do cabelo feminino. Qual homem consegue deixar de assombrar-se diante do efeito misterioso que uma cor diferente, um corte mais ousado, ou mesmo uma escova bem feita, provocam na personalidade da mulher que acaba de voltar do salão? Há tratados filosóficos a serem escritos a respeito desse assunto, há fenomenologias ocultas sob todo esse mistério.

Às vezes tento descobrir em minhas reflexões algo que explique esse meu misticismo, e acabo sempre por chegar à conclusão de que os cabelos femininos são um pouco alma, algo como juncos de fios sutis do espírito.

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Ora, lendo ontem um trecho de Ortega y Gasset em seu delicioso “O Homem e a Gente”, descobri que tenho no filósofo espanhol um irmão de crença, um irmão que demonstra inclusive certo fundamentalismo na fé que descrevi, estendendo o misticismo que nutro pelos cabelos a todas as outras sinuosidades do corpo feminino:

“A relativa hiperestesia das sensações orgânicas da mulher determina que seu corpo exista para ela, mais do que o do homem, para ele. Nós, os varões, normalmente esquecemos o nosso irmão corpo, não sentimos que o temos senão na hora frígida ou tórrida da extrema dor ou do extremo prazer. Entre o nosso eu, puramente psíquico, e o mundo exterior, nada parece intrapor-se. Na mulher, ao contrário, a atenção é constantemente solicitada pela vivacidade de suas sensações intracorporais: sente em todas as horas o seu corpo como interposto entreo mundo e o seu eu, leva-o sempre diante de si, ao mesmo tempo como escudo que defente e como refém vulnerável. As conseqüências são claras: toda a vida psíquica da mulher está mais fundida com o seu corpo do que no homem; isto é, a sua alma é mais corporal mas, vice-versa, o seu corpo convive mais constante e estreitamente com o seu espírito; isto é, seu corpo está mais transido de alma. Com efeito, a pessoa feminina oferece um grau de penetração entre o corpo e o espírito muito mais elevado do que o varonil. No homem, comparativamente cada um costuma ir para o seu lado; corpo e alma sabem pouco um do outro, atuam até como irreconciliáveis inimigos.”

“(...) O resultado dessa atenção constante que a mulher presta a seu corpo é que este nos aparece desde o início como impregnado, como cheio todo ele de alma. Nisso se funda a impressão de fraqueza que a sua presença suscita em nós, porque em contraste com a sólida e firme aparência do corpo, a alma é algo trêmulo, a alma é algo fraco. Enfim, a atenção erótica que produz no varão não é, como sempre nos disseram os ascetas, - cegos para tais assuntos, - suscitada pelo corpo feminino enquanto corpo; ao contrário, desejamos a mulher porque o corpo dela é uma alma.”

José Ortega y Gasset;
“O Homem e a Gente”, cap. VI, pág. 172
(Ed. Livro Ibero-Americano, 1973)

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junho 18, 2004

A Sabedoria das Cãs. 

Gosto de dizer como o outro que “I am large, I contain multitudes” - funciona para mim que sou gordo e economista, tendo sido no passado distribuidor da Amway e leitor aplicado do Anthony Robbins.

Anthony Robbins me ensinava que para ter sucesso era necessário que eu copiasse as crenças das pessoas maravilhosas bem-sucedidas, e eu queria copiar Salomão, um sábio com um harém. Para mim esse sim era o Poder Sem Limites.

Larguei a Amway, mas ainda quero o harém, de forma que preciso continuar instilando em minhas representações mentais as crenças de Salomão. E ele dizia em seus Provérbios que há justiça e sabedoria nas cãs.

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No início do ano passado, buscava opiniões sábias a respeito da guerra no Iraque. Queria, portanto, a guia de bloggeiros com cãs, e achei o Alexandre Soares Silva, o old boy dos Wunderblogs, que, no dia 01 de maio do ano passado, disse ao mundo a verdade derradeira para quem buscasse se posicionar em relação à guerra em questão: é imoral colocar-se ao lado de quem tira a roupa para protestar.

O post lançou uma luz brilhante em meus olhos, deixei de perseguir os neocons e me tornei um deles.

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Como dizem as gerentes de RH e as anoréxicas, “nada como um dia após o outro". E elas têm razão: lendo com cuidado e perplexidade o memo preparado no dia 6 de março deste ano para o secretário de defesa americano Donald Rumsfeld, no qual são avaliados os méritos legais da prática da tortura, e a partir do qual se entende que Abu Grahib não foi um caso islodado como pretendiam alguns, decidi que não sou mais um neocon. Mas enrusti a decisão por não conseguir encontrar alguém que compartilhasse do meu desejo de indignar-me vestido.

É com orgulho que saio hoje do armário, pois, tendo lido este artigo do Terry Jones no "The Guardian", tenho certeza de não estar mais sozinho ao me opor aos ”Bushniks” de terno, monóculo e cachimbo.

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junho 17, 2004

Mulher com Brinco de Pérola 

A beleza da Scarlett Johanson desliza pelo caminho dos olhos, dissolve em silêncio os conteúdos do espírito, e acaba por deixar na alma a mesma dor que sentimos na cabeça quando bebemos gelado muito rápido.


Pearl Posted by Hello
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junho 09, 2004

Grandes Momentos que não vão ficar na História... 

...porque não sou eu quem escreve os livros didáticos:

"Mas rapaz, não fique assim:
o importante é competir."

Ronald Reagan, 1989,
em diálogo com Mikhail Gorbachev, minutos antes da Queda do Muro de Berlim.

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"Ronald Reagan, o ator?" - Doc Brown, 1955. 

Ator medíocre?, hmmmm, diga aí então: qual deles foi o presidente? -

1. Reagan, cristão liberal protetor dos gays: "He embraced life and pleasure and humor and fun. A divorced man who campaigned against homophobia and rarely went to church, he also had an effortless sense of the Almighty that came through when needed, and so bridged some of the cultural gaps that his successors have failed to do. In some ways, this is a reflection of his immense talents and complex personality rather than his successors' weaknesses." - Post de Andrew Sullivan, The Bloggerfather, além de jornalista e ativista gay.

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2. Reagan, arauto da paz e do diálogo: "Ronald Reagan's first term as president had been dedicated to restoring America's self-confidence. He appealed to the traditions and optimism of the people, to the American dream, and he regarded as his main task strengthening the economy and the military might of the United States. This was accompanied by confrontational rhetoric toward the Soviet Union, and more than rhetoric — by a number of actions that caused concern both in our country and among many people throughout the world. It seemed that the most important thing about Reagan was his anti-Communism and his reputation as a hawk who saw the Soviet Union as an 'evil empire.'

"Yet his second term as president emphasized a different set of goals. I think he understood that it is the peacemakers, above all, who earn a place in history. This was consistent with his convictions based on experience, intuition and love of life. In this he was supported by Nancy — his wife and friend, whose role will, I am sure, be duly appreciated." - Trecho de artigo de Mikhail Gorbachev, publicado no "The New York Times" de 07 de junho.

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3. Reagan, libertário desde criancinha: "Be that as it may: on the foreign policy front Reagan was hardly the warmonger he's made out to be by the left as well as the neocon right. But it's on the domestic side that I feel the most nostalgia for Reagan and that whole era, which rings, at least in memory, with the cadences of a libertarian distrust – an outright hostility – to government power. The attempt to liquidate the real legacy of Ronald Reagan – the ardent Goldwaterite who extolled liberty and disdained mere security – and portray him as a warmongering neocon, once again underscores the Soviet style of our "ex"-leftist neocons, who have an uncanny ability to rewrite history as quickly as it unfolds." - Artigo de Justin Raimondo, polemista libertário, publicado dia 07 de junho.

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4. Reagan, neoconservador em espírito: "Much has been written about the source of Ronald Reagan's policy of re-igniting the political dimension of the Cold War, of challenging the legitimacy of the Soviet leadership, of pushing them until they fell. Theories abound about the influence of this adviser or that, about the authorship of one inflammatory phrase or another. Who was it who wanted to stop the Soviet oil pipeline into Germany? Was Edward Teller behind the SDI? Who penned the phrase "evil empire"? From inside the administration, the identity of the architect who erected the last grand strategy of the Cold War was clear: it was Reagan himself. And much as those of us who were privileged to advise him might wish to share the recognition of success that will clearly come with the passage of time - liberals are too confused or self-serving to credit the Reagan strategy with the Western victory in the Cold War any time soon - the truth is that Ronald Reagan was singular in understanding, and acting to exploit, the depth of Soviet vulnerability." - Richard Perle, membro ilustre do Conselho Jedi-Neocon, em artigo publicado dia 06 de junho no jornal inglês "The Telegraph".

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Não convenci? Então vejam só o final do filme:
(Atenção - Oscar performance nos próximos parágrafos)


"The former First Lady believes her long-suffering husband recognized her when he stared into her eyes for an instant before taking his last breath, his daughter Patti Davis writes.

"It was the greatest gift he could have given me," the former First Lady told her family.

Sobbing, shaking and knowing death was imminent, she held her husband's hand about 1 p.m. Saturday as he inhaled deeply and opened his eyes for the first time in five days.

While most thought Alzheimer's disease had robbed former President Reagan of all his memory, the last look he gave his wife was one of deep acknowledgment, Davis writes for People magazine in its upcoming edition.

"At the last moment when his breathing told us this was it, he opened his eyes and looked straight at my mother. Eyes that had not opened for days did, and they weren't chalky or vague," Davis recalls. "They were clear and blue and full of life. If a death can be lovely, his was." - Texto publicado no Daily News de 8 de junho.
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junho 08, 2004

Qoheleth lê, ô lá lá 

Enquanto isso, no Brasil:
nada de novo sob o Sol.

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junho 03, 2004

Epígrafe para uma futura autobiografia (capítulo "Juventude") 

"Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos, que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas, incorpora-se em mim, obsessivo, este pensamento: um homem que tenha vinte anos hoje pode fazer um projeto de vida que tenha caráter individual e que, portanto, precisaria ser realizado por suas iniciativas independentes, por seus esforços particulares? Ao tentar destacar essa imagem em sua fantasia, não notará que é, senão impossível, quase improvável, porque não há espaço disponível para alojá-la e no qual possa se mover segundo sua própria vontade? Logo perceberá que seu projeto tropeça no do próximo, como a vida do próximo restringe a sua. Com a facilidade de adaptação própria de sua idade, o desânimo o levará a renunciar não só a todo ato, mas até mesmo a todo desejo pessoal, e ele buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard, composta de desiderata comum a todos, e verá que para consegui-la será necessário solicitá-la ou exigi-la coletivamente com os demais. Daí, a ação em massa."

José Ortega y Gasset,
do prólogo aos franceses de "A Rebelião das Massas".

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Post It:
"Rage, rage against the dying of the light"
(convencer o espírito)

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King William 

Já fui junkie de acender um livro no outro, hoje estou curado e enobrecido pelo trabalho, cada vez mais enobrecido, me chamem de Majestade.

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Post It:
Idéia para um rock evangélico, "Vícios Escrotos".

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Post It:
Não esquecer o veneno africano para as flechas da viagem (atentar para as artimanhas do pigmeu albino)

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Post It:
Ver no Google quem é Maria Clara


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junho 02, 2004

Brief Movie Reviews # 02 

Kill Bill

O Cidadão Kane dos filmes de videogame - entenda melhor o roteiro no link ao lado (atenção - big spoilers). Ao Lado
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